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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Que sujeito artificial...

De vez em quando, eu esbarro num saudosista. É um sujeito esplêndido, que vive enfiado no passado. Direi mais: - vive feliz e realizado no passado como um peixinho num aquário de sala de visitas. E convenhamos que isto é bonito, é lindo.

Por exemplo: - o futebol antigo. Era, a meu ver, um fenômeno vital muito mais rico, complexo e intrincado. Hoje, os jogadores, os juízes e os bandeirinhas se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Não encontramos, em ninguém, uma dessemelhança forte, crespa e taxativa. Não há um craque, um árbrito ou um bandeirinha que se

imponha como um símbolo humano definitivo. Outrora havia o "juiz ladrão". E hoje?

Hoje, os juízes são de uma chata, monótona (pseudo)honestidade.

E vamos e venhamos: - A virtude pode ser muito bonita, mas exala um tédio homicida e, além disso, causa úlceras imortais. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera.

Mas ponha um árbitro insubornável diante de um vigarista. E verificaremos isto: - Falta ao árbitro a f, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista. O profissionalismo torna impossível (ou quase) o juiz ladrão. E é pena. Porque seu desaparecimento é um desfalque lírico, um desfalque dramático para os jogos modernos.

Vejam vocês que coisa melancólica e deprimente: - um jogo de futebol tem 22 homens. Com o juiz e os bandeirinhas, 25. Acrescentem-se os gandulas e já teremos um total de 29. Vinte e nove homens e nem um único e escasso canalha, nem um único e escasso vigarista! Eis a verdade, que levaria um sujeito ao desespero e à úlcera: - as condições do futebol contemporâneo tornam impraticável a existência do canalha. Vez ou outra o canalha pode existir, mas contido, frustrado, inédito, sem função e sem destino.

Nelson Rodrigues dizia: “O passado tem sempre razão”.

Não sou saudosista (nem tenho idade pra isso), mas a figura do árbitro, realmente, me incomoda.

Nelson já falava de como o futebol era mais romântico nos tempos idos. No caso, nas décadas de 10 e 20. Retomando, a mesma impressão tem a minha geração sobre a década de 90. “Quando se jogava o futebol de verdade”, pensamos. Assim também pensarão os garotos de oito, nove, onze anos de hoje, quando daqui a 15 esbravejarem que não se fazem mais Kakás, Ronaldinhos, Cristianos Ronaldos, Gerrards, Drogbas como em seus tempos.

Rafael Garça



4 comentários:

RUY GUERRA disse...

excelente,GARÇA;ótima explanação....abs.RUY GUERRA.

Klaus disse...

Cada coisa em seu lugar!! Imagine só se Eduardo Bueno ouvisse um papo destes!! Brincadeira, mas você está certo!! Afinal, o romantismo já não é o mesmo, contudo, ele ainda existe!! Que não sobrem Gattusos, Gravensens e Sandros Goianos!!

Abração!!

Glorioso Alvinegro (www.gloriosoalvinegro.blogger.com.br)

Alexandre Massi disse...

Garça,


Se vc quiser fazer uma troca de links de blogs, dá um toque.

Tenho o BLOG DO MASSI!


www.blogdomassi.blogspot.com


Abraços

Carlão Azul disse...

Parabéns Rafael....

Belo texto.
Sds. Celestes

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